Sem nenhuma relação com as pessoas de carne e osso, decidi abrir meu próprio negócio após morto. No início da vida adulta, transportava cadáveres para o necrotério, não era a profissão que imaginava quando criança, mas o estágio na sala fria introduziu monumentais noções de beleza.
A civilização que frequentava era supostamente fundamentada em razão e culpa. Jamais acessei. O primeiro fantasma apareceu aos quatro anos. Pedia ao irmão mais velho que me levasse ao quarto de nossos pais durante a noite. Na primeira infância, eles só apareciam na ausência da luz. Com o passar dos anos ficou corriqueiro voltar da escola com Nina, a cachorra da vizinha que morreu atropelada.
Agosto era o aniversário da cidade, mês do parque de diversões chegar. E foi ali que havia descoberto algo de imenso valor. Tão belo, imponente e cheio de admiráveis pessoas, que nunca ninguém viu. Nome trem-fantasma em luz piscante. A primeira vez que o vi, fui convidado a me retirar. Já estamos fechando o parque, o senhor terá que ir embora. Vinte vezes contadas, bancadas por meus pais, andei sobre aqueles trilhos.
Setembro chegava e findava a falência da minha mãe. Agora só no próximo ano, filho. Tira da terra sobre a qual se anda a pá. Inacessível silêncio, quarto fechado para dentro. Filho, vai sair um pouco, duas semanas que está trancado aí. Nenhum ânimo. Silêncio rasgando tímpano.
A última vez que tentei explicar sobre os meus amigos fui convidado a ficar de castigo. Você só sabe conversar com essas pessoas que não existem. Esse menino precisa tomar sol, está pálido e sempre de preto. Ele vai para a igreja? Com dezesseis anos, fugi. Nunca mais voltei. Não tinha informações sobre pai, mãe, tio, avó, irmão.
O abandono reconhece os filhos de longe, suas casas também. Minha nova morada ficava no final da rua sem saída. Não havia moradores. Apenas Agnes e Rubens, dois morcegos que me acolheram com a maior doçura possível. O café da manhã nunca era acompanhado, pois estavam dormindo. Porém, nossa ceia era sempre afetuosa, e fazia questão de servir os melhores chás para meus colegas noturnos.
Nessa época comecei a trabalhar como coveiro. Emprego exigente e cansativo. Com o passar dos anos fui promovido e passei a fazer o transporte dos corpos. Ali, criei coragem para construir meu próprio negócio.
No IML, conheci uma senhora sem a cabeça, muito comunicativa pela linguagem dos sinais. Me dizia que iria trabalhar no novo parque de diversões. Gatilho da infância armado. Foi então que fiz a passagem, como dizem. Depois que o coração parou, tive a plena noção – não sacrifiquei a vida em vão. Ela serviu para verificar – o resto sempre ficará com os outros – e isso não é pouca coisa.
Algo meio calvinista, o trabalho dignifica o homem e o sangue o eterniza. No meu caso, só queria empreender com pessoas que realmente me escutavam. Abrir o meu próprio trem-fantasma, trabalhar com todos os conheci nos meses de agosto.
A empresa ferroviária acabou crescendo e tornou-se a maior do país. Transportava todos os mortos para os lugares mais desejados. A senhora vai embarcar? Perguntei olhando para baixo. Não, apenas vim conferir com os próprios olhos o rumor. Alguma coisa acertei sobre a sua criação. Tem um espaço para sua mãe por aqui? O tempo do outro lado terminou.
Você vai aprender a gostar dessa gente, mãe. Acordou sem sentir nenhuma dor, não é mesmo? Não está mais entre os vivos. A morte de um filho serve sempre de modelo para a morte dos pais. Não está mais viúva, afinal, quando o filho morre antes da mãe, é geralmente isso que acontece. Aqui é melhor, bem melhor.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.